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Article ImageMarte tem cativado a humanidade desde o tempo dos antigos astrônomos babilônios. Na era moderna, a ideia de vida em Marte tem sido um foco de tais grandes mentes como HG Wells, Carl Sagan e David Bowie. Os planos para levar a humanidade a Marte dentro das próximas duas décadas já estão em curso. O presidente Obama recentemente aprovou o envio de pessoas para Marte e "devolvê-las com segurança à Terra", assim como John F. Kennedy fez nos anos 60. 
Há muitas pessoas que querem ver a humanidade chegar em Marte, mas, há outro grupo menos notado de pessoas que perguntam: "devemos mesmo ir?". Embora as razões que nos obrigam a ir a Marte sejam muitas e sejam também substanciais há uma questão importante que deve ser considerada.

E se já existir vida em Marte? Devemos ainda ir se houver?

Suponha por um momento que descobrimos amanhã que há vida em Marte, certamente vida microscópica, mas ainda assim seria a vida. Seria a descoberta mais significativa na história da ciência. Será que a humanidade teria o direito de colonizar Marte neste caso? Poderíamos alegar que é moral fazer isso?

Um dos maiores defensores da exploração do espaço no século 20, Carl Sagan, disse que não. Em 'Toadas Para um Planeta Vermelho' um dos capítulos de seu livro Cosmos, ele exclama essa ideia: "Se há vida em Marte, creio que não devemos fazer nada lá. Marte pertence então aos marcianos, mesmo se eles forem somente micróbios". Quando ele escreveu isto, em 1980, evidências inconclusivas sobre a vida em Marte a partir das sondas Viking fizeram sua declaração incrivelmente relevante.

Embora possamos considerar a ideia de vida em Marte menos provável do que na época de Sagan, a pergunta que ele tenta responder continua sendo importante. Especialmente quando a humanidade se move para além de Marte e para outros candidatos a mundos que abrigam vida, tais como Europa, Titan ou Enceladus.   

Sagan foi oposição ao antropocentrismo, a crença de que os seres humanos são excepcionais ou de outra forma extremamente significativos, tanto na Terra quanto no Universo. Em defesa dos direitos dos micróbios marcianos em seu planeta, Sagan sugere que toda a vida tem grande valor e que nossa capacidade de chegar a Marte não constitui um direito de colonizá-lo.

Por outro lado, outro argumento poderia se basear no fato que, se a vida que encontrássemos for vida microbiana, talvez essa não tenha direito a quaisquer coisas especiais. Afinal, quem se preocupa com os direitos dos micróbios na Terra?

Considere alguns métodos de decidir quem tem certos direitos na filosofia moderna. Eles tendem a correr para a questão do antropocentrismo e, dessa forma, torna-se difícil proteger os direitos, da vida não-humana, se ela existir. Micróbios ficam de fora inteiramente.

A ideia de James Griffin sobre os direitos humanos se baseia na noção de órgão normativo, a nossa capacidade de projetar e agir sobre um plano de vida, e só pode ser aplicada plenamente à humanidade neste momento. 

A noção de autonomia de Kant também é difícil de aplicar a qualquer coisa menos inteligente do que um ser humano. Enquanto seria possível suportar uma máxima que respeite toda a vida, e não apenas a humanidade usando sua ética, Kant ainda depende da capacidade de um agente moral que possa raciocinar, e geralmente não considera micróbios como sendo capazes de fazer isso. John Rawls, em sua obra kantiana, "Teoria da Justiça", exclui os animais de terem "direitos" por causa disto. Em todas as suas obras, ele nunca sugere que devemos a vida não-humana nada mais do que uma garantia para evitar a crueldade. Sua preocupação com micróbios pode ser considerada mínima.

O utilitarismo de John Stuart Mill talvez exija que nós invadamos Marte, uma vez que ele coloca a felicidade de um ser humano em um valor muito maior do que a de uma forma de vida mais baixa. Afirmando em seu texto clássico  utilitarista: "É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito e se o tolo, ou o porco, são de opinião diferente, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão". A promoção da total felicidade, então, pede-nos a ignorar os riscos para a vida microbiana em Marte. 

Claro, os adversários do antropocentrismo poderiam apontar, talvez precisamente, que os seres humanos têm uma tendência de colocar um alto valor sobre as características que eles têm monopólio. Quando a felicidade é discutida, nós ainda afirmamos acesso a uma forma superior da mesma. Talvez nós estamos inclinados para nossas próprias virtudes e valores. Afinal, não estaríamos sendo águias inteligentes valorizando o poder de voar e uma visão aguçada sobre algo que tem polegares?

Então, devemos ir a Marte? Ou Marte pertence aos marcianos, se existirem? A questão de que se alguma vez houve vida em Marte deve ser resolvida em primeiro lugar. Quando for resolvida, ainda estamos confrontados com a questão da vida em outros mundos para onde desejamos viajar. Devemos invocar a Primeira Diretriz da Federação ao explorar os céus, ou deixar de lado a bactéria do cosmos? O júri filosófico ainda está de fora.  

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Autor Felipe Sérvulo

Graduado em Física pela UEPB. Mestrando em Cosmologia, gravitação e física das partículas pela UFCG. Possui experiência na área de divulgação científica com ênfase em astronomia, astrofísica, astrobiologia, cosmologia, biologia evolutiva e história da ciência. Possui experiência na área de docência informática, física, química e matemática, com ênfase em desenvolvimento de websites e design gráfico e experiência na área de artes, com ênfase em pinturas e desenhos realistas. Fundador do Projeto Mistérios do Universo, colaborador, editor, tradutor e colaborador da Sociedade Científica e do Universo Racionalista. Membro da Associação Paraibana de Astronomia. Pai, nerd, geek, colecionador, aficionado pela arte, pela astronomia e pelo Universo. Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/8938378819014229
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